Maria era a enfermeira no meu sonho

Mais uma vez sonhei que estava “preso” em um quartel da Marinha do Brasil, instituição que deixei há 17 anos. Já havia acabado o expediente, eu tinha o direito de sair do quartel, mas, não conseguia sair de jeito nenhum. Sempre havia um problema, uma tarefa a mais a ser cumprida, uma desculpa para que o departamento não fosse liberado. Até que encontrei uma saída para fugir, uma passagem pouco conhecida por dentro de um hospital que fazia parte do complexo do quartel.

Ao entrar no hospital, vi que pessoas com diferentes problemas de saúde permaneciam juntas em um grande salão hospitalar, semelhante aos hospitais de campanha erguidos em tempos de guerra. Machucados, acidentados, esquizofrênicos e outros pacientes conviviam na unidade médica superlotada.

Uma jovem com a perna quebrada, deitada no chão, estava no meu caminho. Como era estreito, eu precisava passar por cima dela para avançar até a saída. Eu sabia que minha esposa me esperava em uma sala pequena do outro lado do saguão, a uma porta da rua e da liberdade. Com bastante pressa, mas com cuidado para não pisar nela, comecei a passar por cima da jovem, que vestia uma fantasia azul brilhosa, como se tivesse saído de um bloco de carnaval.

O chão estava sujo de sangue e material cirúrgico, algodão, gaze e frascos de soro. Uma haste metálica havia sido colocada na perna da jovem e ela gemia de dor, mesmo dormindo. Sentada em uma cadeira no canto da parede, uma enfermeira usando uniforme antigo, da primeira metade do século 20, de cabelo amarrado e olhos azuis, branca, confirmou que por cima da garota era o único caminho possível.

Durante minha passagem, ao se mexer no chão dormindo a jovem machucada abraçou meu pé com os braços e o corpo, com carinho. Devagar, tive que soltar meu pé esquerdo, tentando não machucá-lá. A enfermeira se mexeu na cadeira, preocupada comigo e com a jovem, mas não tocou na menina para me ajudar. Finalmente meu pé se soltou e consegui concluir a passagem.

Antes de eu sair, um rapaz que sofria de alucinações gritou algo sem sentido, não lembro as palavras dele. Já do lado de fora, sem saber o que eu tinha visto no interior, minha esposa me contou uma história que tinha ouvido da minha mãe: naquele hospital Nossa Senhora trabalhava como enfermeira. Pacientes relatavam cuidados recebidos das mãos da Mãe de Jesus. Imediatamente compreendi que Maria era a enfermeira que vigiava os pacientes do canto da parede e que me orientou sobre o caminho. Através do abraço que a jovem no chão deu na minha perna, Nossa Senhora também cuidou de mim.

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